Coprodutos da indústria de etanol de milho ampliam presença nas dietas de confinamento

Ingredientes das biorrefinarias ganham relevância na nutrição de bovinos, enquanto novos padrões oficiais de qualidade trazem mais previsibilidade para sua utilização.
260828_rota_03_fazenda_dom_ricardo_ariquemes_RO_agf_0040 (Cópia em conflito de Bela Magrela 2026-10-14)

A intensificação da pecuária de corte tem aumentado a demanda por ingredientes que contribuam para o fornecimento de proteína e energia nas dietas do sistema produtivo. Nesse cenário, os coprodutos da indústria de etanol de milho vêm ganhando espaço na alimentação dos bovinos confinados.

O movimento aparece nos dados levantados pelo Confina Brasil. No benchmarking de 2025, os coprodutos secos da produção de etanol de milho, como DDG e DDGS, foram o alimento proteico mais citado entre as propriedades pesquisadas, presentes em 48,3% dos confinamentos acompanhados naquele ano.

A participação ocorre em sistemas caracterizados por dietas de elevada densidade nutricional. Nas dietas de terminação avaliadas pelo Confina Brasil em 2025, os alimentos concentrados representaram, em média, 79,3% da composição, enquanto os volumosos corresponderam a 20,7%.

A inclusão de concentrados depende de alguns fatores importantes, como disponibilidade regional de ingredientes, custos, logística, oferta de volumoso e características de cada sistema produtivo. As médias estaduais de inclusão variaram de 60% a 84,9%, e em algumas propriedades, foram identificadas dietas sem inclusão de volumoso, evidenciando a diversidade das estratégias nutricionais adotadas nos sistemas intensivos.

Nesse contexto, a proximidade entre a produção pecuária e as usinas de etanol de milho abriu uma nova possibilidade para as formulações. Além do teor de proteína e energia, a disponibilidade regional dos coprodutos contribui para sua utilização como alternativa nas dietas, desde que suas características nutricionais sejam conhecidas e consideradas na formulação.

Padronização aumenta previsibilidade para quem formula a dieta

O crescimento desse mercado trouxe também a necessidade de estabelecer critérios mais claros para caracterizar os diferentes ingredientes originados nas biorrefinarias.

Em 30 de junho de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) assinou a Portaria nº 929, que estabelece padrões de identidade e qualidade para produtos de biorrefinarias de milho e de outros cereais amiláceos destinados à alimentação animal. A medida define parâmetros de composição para 13 categorias de produtos e representa um marco regulatório para o setor no Brasil. A regulamentação estabelece parâmetros de composição para diferentes categorias, contemplando características como umidade, proteína bruta, extrato etéreo, fibra bruta e composição mineral.

Conhecer a composição nutricional do ingrediente contribui para uma formulação precisa e segura, sem a necessidade de ajustes ao longo da estadia dos bovinos no confinamento, que poderiam comprometer o desempenho produtivo.

Segundo a FS, a definição de critérios de classificação também favorece a utilização mais precisa dos coprodutos do etanol de milho nas formulações. “Agora existe um padrão oficial de identidade e qualidade, com limites específicos para cada categoria, o que traz mais segurança para quem compra. Com critérios de classificação e rotulagem padronizados, o pecuarista consegue formular dietas com maior consistência e comparar os produtos disponíveis”, afirma a empresa.

A mudança ganha importância justamente em um momento de expansão da oferta desses ingredientes.

Mais etanol também significa mais coprodutos disponíveis

A produção de DDG e de outros produtos destinados à nutrição animal está diretamente relacionada ao processamento do milho para fabricação de etanol. Assim, o avanço da indústria de biocombustíveis cria também uma cadeia complementar de produção que retorna ao setor agropecuário na forma de ingredientes para alimentação.

Esse movimento pode ganhar novo impulso com o aumento temporário do teor obrigatório de etanol anidro na gasolina comum de 30,0% para 32,0%. O E32 entrou em vigor em 1º de agosto de 2026, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de uma prorrogação por igual período.

Na avaliação da FS, o aumento da demanda por etanol tende a estimular o processamento da matéria-prima e, consequentemente, a geração de coprodutos. “Mais etanol anidro obrigatório na gasolina significa maior demanda pelo biocombustível. Como os produtos são gerados no mesmo processo industrial, uma maior moagem também pode representar aumento da oferta de DDG e dos demais ingredientes destinados à nutrição animal”, explica a empresa.

O efeito do E32, porém, é conjuntural. A perspectiva a longo prazo está relacionada à expansão da indústria de biocombustíveis e ao marco estabelecido pela Lei do Combustível do Futuro. A legislação permite que a participação do etanol anidro na gasolina chegue a até 35,0%, desde que analisada à viabilidade técnica da mistura e aprovada a inclusão pelas autoridades competentes.

Expansão industrial acompanha crescimento da produção de milho

A ampliação da indústria de etanol de milho levanta outra discussão: até que ponto o crescimento da moagem pode aumentar a competição pela commodity entre diferentes segmentos consumidores?

Aos olhos da FS, a expansão observada até agora ocorreu simultaneamente ao crescimento da produção brasileira do grão. Segundo os dados apresentados pela empresa, a produção nacional passou de aproximadamente 85 milhões de toneladas de milho em 2015 para cerca de 146 milhões de toneladas em 2025, enquanto o volume destinado à produção de etanol alcançou aproximadamente 26 milhões de toneladas.

A empresa argumenta que, além de criar uma nova demanda pelo cereal, a instalação das usinas próximas às regiões produtoras permite processar localmente parte da produção, que anteriormente dependia de deslocamentos maiores até outros mercados consumidores, desencadeando assim uma nova cadeia econômica.

Esse arranjo é particularmente relevante para a segunda safra de milho e ajuda a ilustrar a integração entre os elos da cadeia: o grão é processado para a produção de biocombustível, os coprodutos são destinados à nutrição animal e parte das cinzas da biomassa utilizada pela indústria é incorporada a biofertilizantes que retornam à agricultura.

Para a pecuária, a ampliação da oferta de coprodutos aumenta as alternativas disponíveis para a formulação das dietas. A competitividade desses ingredientes, porém, depende da composição nutricional, da regularidade do abastecimento, do custo por unidade de nutriente e do frete.

Nos confinamentos acompanhados pelo Confina Brasil, em que os concentrados representaram, em média, 79,3% das dietas de terminação avaliadas em 2025, conhecer as características e os custos dos ingredientes é fundamental para decisões nutricionais e econômicas mais consistentes.

Mais do que ampliar a produção de biocombustíveis, o avanço das biorrefinarias cria conexões entre agricultura, indústria e pecuária. O desafio é transformar a maior disponibilidade de coprodutos em alternativas nutricionais e economicamente competitivas para cada sistema produtivo.

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