Confina Brasil visita Acre pela primeira vez

Acre, Rondônia e Mato Grosso: intensificação adaptada ao clima, aos insumos regionais e às pessoas.
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Na Rota 3 do Confina Brasil os pesquisadores da Scot Consultoria visitaram pela primeira vez o Acre, para ver de perto uma pecuária de corte em expansão. Do bioma amazônico, com chuvas abundantes e logística desafiadora, às regiões consolidadas do agronegócio do Mato Grosso, o que se observou em comum foi a capacidade dos pecuaristas de ajustar o sistema de produção à realidade local, aproveitando os insumos disponíveis e investindo em estrutura, planejamento e gestão.

Ao longo de três semanas, a expedição percorreu propriedades no Acre, em Rondônia e em Mato Grosso, reunindo informações técnicas sobre estratégias de terminação intensiva em diferentes sistemas produtivos.

Acre: um estado em transformação

Pela primeira vez o Confina Brasil incluiu o Acre em seu roteiro, onde foram realizadas três visitas técnicas. O estado está inserido no bioma amazônico, possui um regime pluviométrico bastante expressivo e o solo apresenta altos teores de argila na sua composição.

Os próprios produtores categorizam o estado em duas grandes regiões com base no Rio Acre, que corta a capital Rio Branco. Ao Sul do Rio Acre, predominam solos com maior presença de piçarra – uma mistura de argila, areia e fragmentos de rocha. A presença destas partículas contribui para a formação de solos mais estruturados, o que facilita o tráfego de máquinas e implementos. Devido a isso, é nessa porção do estado que se concentram a agricultura e as propriedades pecuárias mais intensificadas, onde foram realizadas as visitas. Conforme se avança ao Norte do rio, diminui-se a presença destas piçarras, de modo que a mecanização fica mais difícil, principalmente no período de chuvas. Nesse sentido, nessas regiões prevalece a atividade de cria.

A agricultura acreana ganhou força a partir de 2018. Segundo dados da Conab, 72,1 mil hectares foram cultivados no estado na safra 2025/26; em produção, o estado foi responsável pela produção de 211,7 mil toneladas de grãos, sendo 96,4% dessa produção de soja e milho. Esse avanço na produção de grãos permite às propriedades integrarem a pecuária à agricultura, visto a maior facilidade na aquisição de insumos para a nutrição do rebanho.

O perfil produtivo do estado é fortemente voltado à cria, sendo um importante fornecedor de bezerros para outras regiões do país. Esse cenário vem mudando: com o maior acesso a insumos – tanto pelo avanço da agricultura local quanto pela chegada de coprodutos – iniciou-se um avanço na recria e terminação dos bovinos no próprio estado, seja em confinamento ou em Terminação Intensiva à Pasto (TIP). No entanto, a fração proteica da dieta ainda é um desafio, já que os insumos de outras regiões percorrem longas distâncias por uma única via terrestre que abastece o estado.

A trajetória dos produtores chamou atenção, muitos deles são pioneiros na região, e possuem o compromisso declarado com a sustentabilidade da produção: a visão é de que não há necessidade de abrir novas áreas, mas sim de produzir com eficiência naquelas já consolidadas, com enfoque na preservação do bioma.

No mercado, o levantamento da inteligência de mercado da Scot Consultoria, elaborado para o Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre, aponta um perfil superavitário de produção. Estima-se que 21,1% da carne produzida atenda ao mercado estadual, 74,5% sejam destinadas a outros estados e 4,4% sigam para a exportação. As exportações acreanas de carne bovina, praticamente inexistentes até 2023, saltaram para US$20,6 milhões em 2024 e chegaram a US$27,6 milhões em 2025, com 5.694 toneladas embarcadas, o que consolida a inserção do estado no mercado internacional.

Rondônia: diversidade regional e confinamentos de grande escala

Em Rondônia, a equipe permaneceu cerca de 10 dias no estado, percorrendo-o de Norte a Sul, de Porto Velho a Vilhena, ao longo da BR-364. O percurso permitiu observar realidades diversas. Na porção Sul, próxima a Vilhena, o cenário se aproxima da realidade do Mato Grosso, com a presença do algodão, o que facilita o acesso a mais um insumo utilizado na dieta dos bovinos.

Em regiões como a de Cacoal e Rolim de Moura, foram visitadas propriedades conduzidas, em sua maioria, por famílias que se estabeleceram ali há décadas e construíram toda a sua trajetória produtiva na região. De fazendas dedicadas, além da terminação, ao melhoramento genético e à cria, até confinamentos de grande escala, os dias nessa região mostraram que o sistema produtivo ideal para cada propriedade é aquele que se adequa à realidade e o objetivo do produtor.

Na alimentação, os coprodutos do algodão – caroço e torta – têm papel de destaque, em razão da proximidade com as regiões produtoras do Norte mato-grossense e do Sul rondoniense. O DDG também já faz parte das dietas e tende a ganhar espaço com o avanço da indústria de etanol de milho, que carrega consigo o fomento à produção deste grão, que é um insumo já consolidado nos confinamentos do estado.

Acre e Rondônia: como os confinamentos lidam com a chuva


Acre e Rondônia têm em comum o elevado volume de chuvas, o que exige planejamento específico dos confinamentos. Os dados parciais do Confina Brasil indicam que, nesses estados, 68,8% dos confinamentos realizam em média cerca de dois giros, ou menos, por ano, com aproximadamente 100 dias cada. Em vez de operar de forma contínua, as propriedades organizam a ocupação das instalações para concentrá-la nos meses menos chuvosos – já que, na região, chove ao longo de todo o ano. Assim, é possível preservar a estrutura e reduzir a depreciação do patrimônio, sem comprometer a rentabilidade do sistema.

Ainda assim, outra estratégia observada é o ajuste da lotação das baias nos períodos de chuva. Ao reduzir o número de animais por baia – por exemplo, de 120 para 80 cabeças –, o produtor diminui a formação de lama, reduz o estresse dos animais e minimiza os danos às instalações, sem abrir mão do giro do confinamento. Outra estratégia observada, é a cobertura dos cochos, encontrada em 18,8% das propriedades visitas nos dois estados. Com isso, é possível operar com segurança também na época das águas, sem comprometer a qualidade do alimento que está sendo fornecido ao rebanho. Em ambos os casos, os investimentos refletem a preocupação com o bem-estar animal e com o uso mais eficiente da ferramenta ao longo do ano.

Mato Grosso: escala, tecnologia e integração produtiva

A última etapa da rota percorreu o Mato Grosso, nas regiões de Campo Novo do Parecis e Tangará da Serra – diferentes das áreas do estado visitadas em rotas anteriores. A região de Sapezal, Campo Novo do Parecis e Campos de Júlio está entre os principais polos produtores de algodão do Brasil e concentra grandes grupos agrícolas, muitos dos quais também atuam na pecuária intensificada.

Com ampla oferta de coprodutos, esses sistemas conseguem operar com custos de arroba produzida inferiores à média nacional. Além disso, a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) é praticada, o que contribui para a sinergia entre as atividades e o fortalecimento da eficiência do sistema como um todo.

Nesse contexto, a intensificação não está associada apenas ao aumento da lotação ou ao uso de suplementação. Ela envolve tecnologia, planejamento, gestão de custos e definição da estratégia de terminação mais adequada a cada operação. Confinamento, engorda de bovinos de terceiros e terminação intensiva a pasto (TIP) são algumas das alternativas encontradas, inseridas em sistemas nos quais a pecuária é administrada como uma unidade de negócio dentro da empresa rural.

Considerações finais

A Rota 3 evidenciou que não existe um único modelo de intensificação. No Acre, a terminação começa a ganhar espaço em um estado historicamente voltado à cria, apoiada no avanço da agricultura e na chegada de insumos. Em Rondônia, o planejamento dos giros, o ajuste de lotação e os investimentos em estrutura permitem conviver com o alto índice pluviométrico. No Mato Grosso, a sinergia com a agricultura, a gestão de pessoas e o avanço de tecnologias mostram caminhos para produzir com eficiência e custo competitivo. Em todas as regiões, a adaptação às condições locais foi o ponto central do sucesso das operações visitadas.

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