A sinergia entre o confinamento e as demais áreas produtivas de uma fazenda envolve diferentes atividades, e o destino do esterco é um dos pontos em que essa conexão fica evidente. Dados coletados pelo Confina Brasil, em 2026, mostram que 96,8% dos confinamentos mapeados realizam a coleta dos dejetos e que, entre eles, 95,9% dão algum tipo de aproveitamento ao material.
Durante a pesquisa expedicionária da Scot Consultoria, que visita e coleta dados de sistemas intensivos de produção de bovinos de corte pelo país, foi observado que o manejo dos dejetos aparece como parte da rotina operacional da propriedade. Em fazendas com áreas de pastagem e de lavoura, o esterco processado pode substituir parte dos fertilizantes minerais adquiridos fora da fazenda. Nesse sentido, o aproveitamento dos recursos dentro da porteira impacta diretamente no custo, na logística e no manejo da fertilidade do solo.
Para estimar o volume gerado, uma referência segura é de 4,5 kg de matéria seca (MS) de esterco por bovino por dia. Em um confinamento de 10 mil cabeças, com ciclo de 100 dias, isso representa cerca de 4.500 toneladas de MS a cada giro, as quais podem ser destinadas a outras áreas da propriedade.
A qualidade do biofertilizante começa no piso do curral
O tipo de piso onde o esterco é coletado muda a composição e a previsibilidade do material. A diferença não está apenas no esterco, mas na quantidade de solo, água, urina e outros contaminantes que entram junto na coleta.
No piso de concreto, o esterco praticamente não incorpora partículas minerais, e a análise laboratorial evidencia que a coleta realizada selecionou apenas o próprio resíduo animal. Esse tipo de piso também permite preservar parte da urina, que concentra uma fração importante do nitrogênio excretado na forma de ureia. Com manejo inadequado, esse nitrogênio (N) é rapidamente convertido em amônia e perdido para a atmosfera. O solo-cimento é uma situação intermediária: quando a superfície está íntegra, a diferença em relação ao concreto é pequena, mas desgaste, fissuras, drenagem deficiente e acúmulo de terra nas bordas comprometem a qualidade do material.
No chão de terra, a raspagem recolhe fezes, urina, solo, areia, palhada e, eventualmente, pedras. O solo funciona como diluente da matéria orgânica e pode mascarar a análise, já que reduz os teores de carbono (C) e nitrogênio do material, sem que tenha ocorrido transformação biológica. Isso também vale para o fósforo: um teor elevado de fósforo no esterco raspado não significa que todo esse nutriente esteja associado à fração orgânica.
Por isso, a formulação da compostagem não deve se basear apenas na relação C/N. Umidade, carbono orgânico, nitrogênio total, matéria orgânica, cinzas, P₂O₅, K₂O, cálcio, enxofre, pH, condutividade elétrica e densidade completam a caracterização. O esterco de chão de terra pode ser uma boa matéria-prima, mas exige mais amostragem e controle para compensar a variabilidade.
Do composto tradicional ao organomineral enriquecido
Com a matéria-prima caracterizada, o esterco pode ser destinado à produção de composto orgânico tradicional ou de um biofertilizante enriquecido. No composto tradicional, o esterco passa por compostagem em leiras, com controle de umidade através do revolvimento, até a estabilização da matéria orgânica. O produto funciona como fonte de matéria orgânica e nutrientes, sem adição de fontes minerais.
O enriquecimento pode ser feito de diferentes formas, com a inclusão de outros resíduos orgânicos ou de inoculantes. Uma das alternativas é a adição de fosfato natural de rocha de baixo teor, que resulta em um fertilizante organomineral fosfatado. Nesse caso, a mistura combina de 40,0% a 80,0% de esterco bovino com 20,0% a 60,0% de fosfato natural. O material é inoculado com microrganismos e passa por uma pré-compostagem de 12 a 15 dias, voltada à solubilização biológica da rocha. Ao final, obtém-se um fertilizante com a formulação NPK definida para a fazenda, aplicado em doses de 600 a 2.000 kg/ha, conforme a recomendação técnica.
Solos tropicais e a fixação do fósforo
Nos Latossolos e Argissolos brasileiros, com forte presença de óxidos de ferro e alumínio, boa parte do fósforo aplicado por fontes altamente solúveis, como MAP e superfosfatos, é adsorvida ou precipitada pouco depois da aplicação. Não há um percentual único de retenção, que varia com teor de argila, mineralogia, pH e matéria orgânica.
Na proposta do Grupo IFB para o organomineral enriquecido, cerca de 40,0% do fósforo total está na fração prontamente disponível, que atende à demanda inicial da cultura. O restante permanece como reserva de liberação gradual, mobilizada ao longo do ciclo pela atividade microbiana e pelo desenvolvimento das raízes. Com isso, a oferta de fósforo se aproxima da demanda da planta, e uma quantidade menor de fósforo fica exposta de uma só vez às reações de fixação do solo. “O objetivo não é colocar mais fósforo no solo, mas fazer com que uma parcela maior do fósforo aplicado permaneça disponível no momento e no local em que a planta necessita”, destaca o Grupo IFB.
O ponto de fósforo
Na comparação com fertilizantes minerais, comparar toneladas de produto leva a conclusões erradas. Fontes como o MAP e o superfosfato simples têm concentrações de P₂O₅ diferentes, e um produto mais barato por tonelada nem sempre entrega o nutriente a um custo menor. O correto é comparar o custo por quilo de P₂O₅ necessário para obter a mesma resposta agronômica, dividindo o preço da tonelada pela quantidade de P₂O₅ que ela contém. Essa mesma lógica vale para o organomineral produzido na fazenda, cujo custo depende do preço e do frete do fosfato natural, da disponibilidade de esterco, das máquinas já existentes e do processamento.
A escala de produção define a viabilidade do investimento. Para produzir 2.000 toneladas de organomineral com 60,0% de fosfato natural, são necessárias cerca de 800 toneladas de esterco, volume gerado por aproximadamente 2.000 bovinos em um ciclo de 100 dias. Esse rebanho é a referência mínima para que o investimento na produção dentro da propriedade se torne viável. Em formulações com menor proporção de fosfato, a demanda de esterco aumenta: com 20,0% de fosfato natural, são necessárias cerca de 1.600 toneladas, o que exige o giro de aproximadamente 3.600 bovinos.
O investimento varia conforme a estrutura que a fazenda já possui. Em confinamentos que contam com trator, pá carregadeira, carreta, área disponível, armazenamento e mão de obra, o investimento adicional se concentra na infraestrutura de compostagem. Isso inclui pátio impermeabilizado, drenagem, triturador, peneira, misturador, equipamento de inoculação, balança, área de armazenamento e controle de qualidade. Quando a propriedade precisa montar a estrutura completa, entram também a aquisição de máquinas, equipamentos de revolvimento, esteiras, sistema de dosagem e galpão.
Esterco reincorporado à produção
O aproveitamento do esterco reduz a dependência de fertilizantes importados, sujeitos a câmbio, frete e oscilações do mercado internacional, e diminui o custo de transporte e destinação do resíduo. Para isso, o esterco precisa ser tratado com o mesmo critério aplicado à dieta dos bovinos: coleta adequada, análise representativa e processo controlado.
Do curral ao campo, a tecnologia de compostagem e de enriquecimento entra como ferramenta de apoio, enquanto as definições de dose e uso devem ser orientadas por um técnico, com base na análise de solo e nas características do sistema produtivo da fazenda.
Nas visitas do Confina Brasil em 2026, a equipe técnica viu que o aproveitamento do esterco bovino esteve presente em boa parte das propriedades. Nos diferentes estados percorridos, a equipe mapeou confinamentos que já recolhem e reaproveitam o material, em busca de valorizar o que é produzido dentro da porteira.
Transformado em biofertilizante, o esterco é direcionado às áreas de pasto e de lavoura, cuja produção, muitas vezes, retorna ao cocho como parte da dieta dos bovinos. Fecha-se, assim, um ciclo dentro da própria fazenda: o que o boi come no cocho volta ao campo como nutriente, e o confinamento passa a contribuir não somente com a produção de carne, mas também com a construção da fertilidade do solo da fazenda.
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