Produtos da biorrefinaria de milho ampliam presença nas dietas de confinamento

Grãos e fibras de destilaria ganham relevância na nutrição de bovinos, enquanto novos padrões oficiais de qualidade trazem mais previsibilidade e segurança para sua utilização.
260828_Coprodutos da indústria de etanol de milho ampliam presença nas dietas de confinamento

A intensificação da pecuária de corte tem aumentado a demanda por ingredientes que contribuam para o fornecimento de proteína e energia nas dietas do sistema produtivo. Nesse cenário, os bioinsumos da indústria de etanol de milho vêm ganhando espaço na alimentação dos bovinos confinados.

Segundo o benchmarking 2026 do Confina Brasil, os coprodutos do etanol de milho (grãos e fibras, secos ou úmidos, com ou sem solúveis) lideraram a classe de alimentos proteicos e estavam presentes em 57,9% dos confinamentos acompanhados.

A participação ocorre em sistemas caracterizados por dietas de elevada densidade nutricional. Nas dietas de terminação avaliadas pelo Confina Brasil em 2026, os alimentos concentrados representaram, em média, 82,8% da composição, enquanto os volumosos corresponderam a 17,2%.

A inclusão de concentrados depende de alguns fatores importantes, como disponibilidade regional de ingredientes, custos, logística, oferta de volumoso e características de cada sistema produtivo. Em algumas propriedades, foram identificadas dietas sem inclusão de volumoso, evidenciando a diversidade das estratégias nutricionais adotadas nos sistemas intensivos.

Nesse contexto, a proximidade entre a produção pecuária e as indústrias de etanol de milho abriu uma nova possibilidade para as formulações. Além do teor de proteína e energia, a disponibilidade regional desses ingredientes contribui para sua utilização como alternativa nas dietas, desde que suas características nutricionais sejam conhecidas e consideradas na formulação.

Padronização aumenta previsibilidade para quem formula a dieta

O crescimento desse mercado trouxe também a necessidade de estabelecer critérios mais claros para caracterizar os diferentes ingredientes originados nas biorrefinarias.

Em 30 de junho de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) assinou a Portaria nº 929, que estabelece padrões de identidade e qualidade para produtos de biorrefinarias de milho e de outros cereais amiláceos destinados à alimentação animal. A medida define parâmetros de composição para 13 categorias de produtos e representa um marco regulatório para o setor no Brasil. A regulamentação estabelece parâmetros de composição para diferentes categorias, contemplando características como umidade, proteína bruta, extrato etéreo, fibra bruta e composição mineral.

Estabelecer a padronização da composição nutricional dessa classe de ingredientes contribui diretamente para uma formulação mais precisa e segura, diminuindo a variabilidade da composição das dietas, variável que pode comprometer o desempenho produtivo.

Segundo a FS, a definição de critérios de classificação não apenas favorece a utilização mais precisa dos produtos do etanol de milho nas formulações, mas reforça o padrão de qualidade das indústrias brasileiras e permite ao nutricionista conhecer diferentes perfis de produtos que antes eram vistos como um só. “Agora existe um padrão oficial de identidade e qualidade, com limites específicos para cada categoria, o que traz mais segurança para quem compra. Com critérios de classificação e rotulagem, o pecuarista consegue formular dietas com maior consistência e comparar os produtos disponíveis no mercado”, afirma Victor Trenti, diretor comercial da empresa.

A mudança ganha importância justamente em um momento de expansão da oferta desses ingredientes.

Mais etanol de milho também significa mais produtos para nutrição animal

A produção de DDG e de outros produtos amiláceos destinados à nutrição animal está diretamente relacionada ao processamento do milho para fabricação de etanol. Assim, o avanço da indústria de biocombustíveis cria também uma cadeia complementar de produção que retorna ao setor agropecuário na forma de ingredientes para alimentação.

Esse movimento pode ganhar novo impulso com o aumento temporário do teor obrigatório de etanol anidro na gasolina comum de 30,0% para 32,0%. O E32 entrou em vigor em 1º de agosto de 2026, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de uma prorrogação por igual período.

Na avaliação da FS, o aumento da demanda por etanol tende a estimular o processamento da matéria-prima e, consequentemente, a geração de ingredientes para a nutrição animal. “Mais etanol anidro obrigatório na gasolina significa maior demanda pelo biocombustível. Como os produtos são gerados no mesmo processo industrial, uma maior moagem também pode representar aumento da oferta dos produtos da linha de nutrição animal”, explica a empresa.

O efeito do E32, porém, é conjuntural. A perspectiva a longo prazo está relacionada à expansão da indústria de biocombustíveis e ao marco estabelecido pela Lei do Combustível do Futuro. A legislação permite que a participação do etanol anidro na gasolina chegue a até 35,0%, desde que analisada à viabilidade técnica da mistura e aprovada a inclusão pelas autoridades competentes. Nesse horizonte, a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) projeta que a produção de etanol de milho, estimada em 9,97 bilhões de litros na safra 2025/26, alcance 16,63 bilhões de litros na safra 2033/34, um crescimento de cerca de 67,0%. Como os produtos para nutrição animal são gerados no mesmo processo, a tendência é de ampliação também da oferta desses ingredientes, que somam 4,8 milhões de toneladas na estimativa para a safra 2025/26 segundo a Unem.

Expansão industrial acompanha crescimento da produção de milho

A ampliação da indústria de etanol de milho levanta outra discussão: até que ponto o crescimento da moagem pode aumentar a competição pela commodity entre diferentes segmentos consumidores?

Aos olhos da FS, a expansão observada até agora ocorreu simultaneamente ao crescimento da produção brasileira do grão. Segundo dados da Conab e do Imea compilados pela Unem, a produção brasileira de milho cresceu 55,0% entre as safras 2014/15 e 2024/25, passando de 90,1 milhões para 139,7 milhões de toneladas. No mesmo período, a moagem do cereal para a produção de etanol passou de 0,2 milhão para 18,4 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 13,2% da produção nacional, e absorveu pouco mais de um terço do aumento da oferta do grão. Para a safra 2025/26, a estimativa é de que a moagem alcance 22,2 milhões de toneladas, cerca de 16,0% da produção. A FS ressalta, ainda, que utiliza exclusivamente milho de segunda safra, cultivado nas mesmas áreas logo após a colheita da soja. Dessa forma, além de incentivar a produtividade no estado do Mato Grosso, a demanda gerada pela empresa está associada ao melhor aproveitamento das áreas já cultivadas.

Para Victor Trenti, além de criar demanda pelo cereal, a instalação das indústrias próximas às regiões produtoras permite agregar valor ao milho na origem, transformando o grão em etanol, óleo e ingredientes para a nutrição animal, desencadeando assim uma nova cadeia econômica.

Esse arranjo é particularmente relevante para a segunda safra de milho e ajuda a ilustrar a integração entre os elos da cadeia: o grão é processado para a produção de biocombustível, os produtos advindos desse processamento são destinados à nutrição animal e, no caso da FS, as cinzas da biomassa utilizada pela indústria é incorporada ao esterco bovino, gerando um biofertilizante que retorna à agricultura.

Para a pecuária, a ampliação da oferta de coprodutos aumenta as alternativas disponíveis para a formulação das dietas. A competitividade desses ingredientes, porém, depende da composição nutricional, da regularidade do abastecimento, do custo por unidade de nutriente e do frete. Mais do que ampliar a produção de biocombustíveis, o avanço das biorrefinarias cria conexões entre agricultura, indústria e pecuária. O desafio é transformar a maior disponibilidade desses produtos em alternativas nutricionais, economicamente competitivas e sustentáveis para cada sistema produtivo.

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