Nos confinamentos, a fibra efetiva vem quase toda de um lugar só: o silo. Como as dietas são formadas majoritariamente por grãos e concentrados, a inclusão média de volumoso foi de apenas 20,7% nas propriedades mapeadas pelo Confina Brasil 2025. Apesar da baixa inclusão, a porção fibrosa assume papel decisivo na manutenção da saúde ruminal. E sua eficácia depende de um alimento que foi colhido, compactado e fechado meses antes de chegar ao cocho.
Produzir, quase todo mundo produz: 93,9% dos confinamentos entrevistados pela expedição em 2025 produzem a própria silagem. Preservar a qualidade desse alimento é o próximo desafio.
Onde o oxigênio entra, a fermentação indesejada avança, a matéria seca se degrada e o que sai na retirada não é o que entrou. O problema é que essa perda pode ser silenciosa.
Silagem perdida é investimento desperdiçado
Segundo a Azul Pack TechAgro, parceira do Confina Brasil, não existe um percentual único de perda aplicável a todos os silos. O resultado depende do ponto certo de colheita no momento da ensilagem, da velocidade da operação, da compactação e da densidade alcançada, da qualidade da vedação, da permeabilidade da cobertura ao oxigênio, do tempo de armazenamento e do manejo durante a retirada.
Ainda assim, as perdas podem ser expressivas. Em determinadas condições de deterioração, as referências de trabalho da empresa chegam a aproximadamente 57 kg de matéria seca perdida por metro quadrado de superfície do silo. A perda se concentra nas regiões periféricas, superfície e laterais do silo, que são as mais suscetíveis à entrada de oxigênio.
O número ganha peso quando se considera o custo de produção dessa silagem. A qualidade nutricional perdida passou por preparo de solo, sementes, fertilizantes, defensivos, operações agrícolas, colheita, corte, transporte, compactação e armazenamento. Perder silagem dentro do silo é perder parte de todo o investimento feito para produzi-la.
Há ainda um segundo impacto: a exigência nutricional do rebanho não muda. Em eventuais perdas de qualidade do volumoso, os nutrientes que deixarão de chegar ao cocho precisarão ser substituídos por outro alimento. Resultando em novos investimentos que não foram planejados.
A perda que não aparece no orçamento
Para dimensionar uma perda de 10%, a Azul Pack propõe olhar primeiro para a quantidade de alimento que deixa de chegar aos animais. O exemplo considera um silo trincheira de 12 metros de largura, 50 metros de comprimento e 3 metros de altura média, com cerca de 1.800 m³ de silagem. Com densidade média de 650 kg de matéria natural por m³ e 35% de matéria seca, esse silo armazena aproximadamente 1.170 toneladas de silagem, ou 410 toneladas de matéria seca.
Uma perda de 10% corresponde, portanto, a cerca de 41 toneladas de matéria seca de silagem que foram planejadas e produzidas, mas não estarão disponíveis para a alimentação. Com consumo médio de 7 kg de matéria seca de silagem por animal/dia, esse volume equivale a aproximadamente 5.857 diárias: o suficiente para alimentar 100 animais por cerca de 59 dias ou 1.000 animais por quase 6 dias de confinamento.
A conta, segundo a Azul Pack, tem duas parcelas. O produtor paga pelo insumo que perdeu e paga novamente pelo alimento que vai substituí-lo, que pode inclusive ter custo por tonelada de matéria seca superior ao da própria silagem.
Quatro por cento
Do outro lado da conta está o custo de evitar essa perda. O filme com barreira ao oxigênio é uma solução tecnologicamente mais complexa e de maior investimento em relação a cobertura convencional. Ainda assim, pela estimativa da Azul Pack, representa em torno de 4% do custo total da silagem.
Por isso, a empresa defende que a comparação não se limite à diferença de preço entre uma lona convencional e um filme de barreira. O critério proposto é outro: quanto de alimento está estocado, e quanto de valor, cada metro quadrado de cobertura está protegendo.
O princípio técnico da barreira é reduzir a passagem de oxigênio através da cobertura. Na presença de oxigênio, microrganismos deterioradores, como leveduras e fungos, potencializam sua atividade microbiana, o que aquece a massa ensilada e compromete a qualidade nutricional do alimento.
A literatura científica citada pela empresa ajuda a dimensionar o efeito. Em uma compilação de estudos, a quantidade de silagem superficial considerada imprópria para consumo foi reduzida em aproximadamente 72% com o uso de sistemas de barreira ao oxigênio. Resultando em menor perda de matéria seca, menor aumento populacional de leveduras e fungos e maior estabilidade do alimento após a exposição ao ar.
O limite da cobertura
Há, porém, uma ressalva que a própria empresa faz questão de registrar e que vale mais do que qualquer argumento de venda: a barreira ao oxigênio não corrige um silo mal-feito.
Baixa densidade e compactação inadequada deixam mais ar retido dentro da massa ensilada. Demora no fechamento, falhas nas emendas, perfurações e vedação deficiente das laterais abrem outros caminhos para a entrada de oxigênio. Nessas situações, mesmo o melhor filme disponível no mercado tem seu potencial limitado.
Por isso, a Azul Pack trata a conservação da silagem como um sistema:
“Não apresentamos a barreira como uma tecnologia capaz de compensar erros no processo de ensilagem. Ela é uma ferramenta para potencializar a conservação de um silo bem executado e proteger todo o investimento que o produtor realizou para colocar aquele alimento dentro do silo.”
É por isso que os pontos críticos apontados pelo parceiro aparecem sempre juntos. Tecnologia e execução não se substituem.
O que a estrada devolve
A participação no Confina Brasil coloca a indústria dentro da porteira, e o retorno vem em duas direções. Para a Azul Pack, o contato com produtores do país inteiro permite à equipe técnica consolidar com clareza que não existe uma única realidade de produção no país, e sim, diferentes realidades produtivas, sistemas de armazenamento, estruturas de silo e práticas de manejo. Em seguida, essas percepções retornam para a empresa e contribuem para o aprimoramento dos produtos e das recomendações técnicas.
“Mais do que apresentar produtos, estamos utilizando a expedição como uma oportunidade de aprendizado, aproximando indústria, equipe técnica e produtor para entender onde a tecnologia pode efetivamente contribuir para melhorar os resultados no campo.”
Alguns desses aprendizados já viraram decisão prática. A empresa relata mudanças na forma de comunicar tecnicamente seus produtos, na abordagem junto aos produtores e na avaliação de mercados e oportunidades, além da abertura de novos clientes em regiões onde sua atuação ainda era pequena.
Quando perguntada sobre como resumiria seu propósito a um pecuarista que a conhece pela primeira vez na expedição, a Azul Pack menciona:
“Mais do que fornecer filmes plásticos, queremos ser parceiros do produtor na busca por melhores resultados. Porque, para nós, acelerar o crescimento dos nossos clientes também significa ajudá-los a produzir bem, conservar melhor e perder menos.”
O valor de quem faz
“Acreditamos que tecnologia, isoladamente, não gera resultado. Ela precisa estar associada a conhecimento, aplicação correta e pessoas comprometidas em fazer bem feito. No final, são essas pessoas que transformam produtos e tecnologias em resultados efetivos no campo. Esse é, para nós, o verdadeiro valor de quem faz.”
É essa a engrenagem que a expedição percorre a cada rota: dados que qualificam a decisão, indústria que ouve o campo e equipes que executam. Nenhuma das três partes entrega resultado sozinha.